*Jovens e Emprego*

 

Os jovens portugueses ficam em casa dos pais até mais tarde para estudar e continuam em casa dos pais depois de estudar porque não arranjam emprego. Segundo dados constantes em A condição juvenil Portuguesa na Viragem do Milénio , os anos de estudo têm vindo a prolongar-se e o desemprego entre jovens licenciados  quadruplicou  em dez anos, o que atrasa a saída de casa , a conjugalidade , a parentalidade e a entrada no mercado de trabalho.

         “ O prolongamento da condição juvenil é talvez a sua característica mais marcante. E isto é visível no facto de todos os rituais , todos aqueles  momentos- charneira de entrada na idade adulta, serem retardados”, explica Vítor Sérgio Ferreira, sociólogo e coordenador  do estudo que vai ser apresentado hoje , em Braga, na Conferência Nacional da Juventude. É o retracto mais completo sobre os jovens jamais realizado em Portugal.

         Em conclusão, os portugueses são jovens até cada vez mais tarde e, depois, quase sem darem por isso , tornam- se demasiado velhos. Os rituais de entrada na idade adulta  acontecem  entre os 25 e os 29 anos, e passa pouco tempo até que se perca o direito aos benefícios fiscais para compra ou arrendamento de casa. Até ser demasiado velho para responder a um anuncio de emprego. Até  ser já demasiado tarde para tentar ter filhos. A conclusão não está assim escrita, preto no branco, no estudo. Mas as dificuldades e a pressão sobre os jovens de hoje vão sendo descortinadas á medida que se folheiam as paginas e que se cruzam dados demográficos com números relativos ao ensino ou ao desemprego, causas de morte com criminalidade, numa perspectiva evolutiva nos últimos 10 a 15 anos.

         “ A ideia era fazer um diagnóstico, mais do que uma análise. Preferimos perder em profundidade mas ganhar em extensão, numa visão alargada da vivência juvenil”, garante Vítor Ferreira, sublinhando a importância de ir muito além da “situação num determinado tempo” mas dar uma perspectiva cronológica, funcionando também como uma maneira de prever tendências e evoluções- ainda que cautelosas.

 

        

O que é a juventude?

 

         Por questões práticas, a definição da categoria baseou-se num “critério meramente demográfico”- população entre os 15 e os 29 anos. Mas, dentro desse grupo, homogeneidade é coisa que não existe.” Nem este estudo nem nenhum outro poderá fazer o perfil da juventude Portuguesa, porque não existe uma juventude Portuguesa. O que existe são tendências. Várias maneiras de os jovens serem jovens, conforme o sexo, os contextos sociais e até conforme a idade, porque aos 29 anos passamos por vários ciclos de vida”, confirma o sociólogo.

         A dilatação da condição juvenil e a tendência para a paridade entre os sexos (“não é ainda total, mas para lá caminhamos”) são as duas características dominantes e que acompanham, de uma maneira geral, a tendência da juventude ocidental. Se bem que, nota Vítor Ferreira, haja um dado interessante a reter: ao contrário do que acontece nos Estados Unidos ou no  Norte da Europa, “ cá não há tradição de acumulação entre o estatuto de trabalhador e estudante”, ou seja, são poucos os jovens que têm empregos em part-time.

         “ Acredito que há um traço cultural, reforçado pelo pais. Muitas vezes são pais pouco escolarizados e que apostam muito na educação dos filhos. Há um sobreinvestimento no percurso escolar. Como se o facto de os jovens trabalharem fosse malvisto pela sociedade.” Também faltam incentivos , que existem por exemplo nos países nórdicos , para que os jovens arrendem uma casa e deixem a familia de origem , mesmo quando ainda estão na faculdade. O que significa a “condição juvenil” não é u, dado isolado e não poder ser analisado fora dos contextos social, cultural político e económico.

         De 1991 para 2004, a população jovem decresceu cerca de 8%, deixando de constituir um quarto da população Portuguesa, para passar a representar apenas um quinto. É um cliché, mas é verdade: nesse quinto está o futuro do país.

 

 

 

Ensino e Emprego

 

Com mais habilitações mas cada vez mais desempregados

 

É quando se analisam os dados referentes ao ensino e à empregabilidade dos jovens que mais nítidas se tornam as diferenças e os contrastes que existem dentro deste grupo de pessoas a que chamamos “ juventude”. “Por um lado existe uma população que é genericamente muito mais qualificada, por outro existem resquícios acentuados de comportamentos tradicionais, como o abandono escolar que ainda é muito acentuado”, explica o coordenador do estudo.

No que toca ao ensino ( ver gráfico), é notório o aumento da frequência escolar. (…) No entanto, esta escolarização não significa mais emprego nem sequer melhores condições de empregabilidade. De todos os números apresentados por este estudo, este merece destaque pelo seu desfasamento com a ideia que temos um país moderno e competitivo: praticamente 50% dos jovens empregados em 2001 não têm mais do que a escolaridade mínima obrigatória, o que, adianta Vítor Sérgio Ferreira, “ ilustra bem o arcaísmo que continua a caracterizar o sistema de emprego português, dominado por segmentos onde se privilegia a mão-de-obra desqualificada, barata, intensiva”.

Em contraste, apesar da ascensão gradual das qualificações académicas, o desemprego continua a aumentar no segmento jovem e é particularmente notória a subida do desemprego entre os jovens com formação com nível superior: representavam apenas 5,1% em 1991; e em 2001 são já 20,6%.´

Para uma minoria, no entanto, valeu a pena o investimento académico: está a aumentar o número de jovens que conseguem atingir cargos de directores, quadros e chefias (17,6% da população jovem activa ; quando em 1991 eram apenas 9,9%).

 

 

in Diário de Notícias, 3-12-2006